sábado, 20 de setembro de 2008

Pessoas não mudam

Por Ed Rene KivitzEncontro com a Vida

Todos tendem a permanecer sendo o que sempre foram; é preciso aprender a conviver com os outros como eles são
Pessoas não mudam. Elas falam em mudar, mas não mudam. Na verdade, mudam apenas quando não têm outra alternativa. Essa é a tese de Po Bronson em seu livro O que devo fazer da minha vida? (Editora Nova Fronteira), onde relata quarenta histórias tiradas de 900 entrevistas com gente de tudo que é tipo.Na verdade, Po Bronson é um otimista. Em novembro de 2004, a megacorporação IBM realizou sua conferência de “Inovação Global”, quando reuniu alguns dos melhores cérebros do planeta para propor avanços científicos e tecnológicos capazes de solucionar os grandes problemas mundiais. No topo da agenda estava o setor da saúde, que custa aos Estados Unidos 1,8 trilhão de dólares anuais (três vezes o PIB do Brasil). A grande conclusão a que chegaram foi que muito desta dinheirama seria economizada se as pessoas estivessem dispostas a mudar seus hábitos alimentares e seu estilo de vida. Mas uma pesquisa realizada para subsidiar a discussão mostrou que, mesmo diante da morte iminente, apenas uma entre 10 pessoas mudam seu jeito de pensar e agir. Em outras palavras, para a pergunta: “Se fosse dada a você a opção de morrer ou mudar, o que escolheria?” De cada 10 pessoas, apenas uma escolheria mudar. Sou tentado a concordar. Ao longo de mais de 20 anos de atividade pastoral, vi muito pouca gente mudando de verdade. Mudanças cosméticas, apenas comportamentais, vi aos montes – mas estruturais, foram poucas. As pessoas tendem a ser o mesmo que sempre foram: os tímidos continuam tímidos, os eufóricos permanecem eufóricos, as mulheres dominadoras seguem dominando, os maridos passivos continuam no cabresto, os trabalhadores continuam trabalhando, o hipocondríacos continuam lendo bulas e por aí vai. Freud explica. Literalmente. Outro dia fui interpelado por uma jovem após uma de minhas palestras. Seu semblante demonstrava apreensão e sofrimento. Foi direta ao ponto: tinha um noivo um pouco violento, que já a havia agredido duas vezes, mas que sempre chorava, pedindo perdão e prometendo não repetir as agressões. Depois, fez a pergunta: “Pastor, devo me casar com ele?” Contrariando um procedimento padrão, respondi de maneira direta: “Apenas se estiver disposta a apanhar pelo resto da vida”. É claro que acredito que aquele sujeito pode mudar. Mas como não podemos ter certeza disso, disse à moça que deve se casar somente na hipótese de acreditar que poderá conviver com o marido, mesmo que ele não mude. Depois daquela conversa, reavaliei minha fé, minha crença no poder transformador do Evangelho e na força da graça. Onde já se viu, um pastor pessimista quanto à mudança das pessoas! Logo eu, que acredito que a transformação pessoal à imagem de Cristo é essencial à mensagem cristã e que o maior problema do ser humano não é o diabo, nem o mundo mau, nem nada que exista do lado de fora, mas seu inimigo íntimo, que habita suas entranhas. Após tantos anos presenciando conversões extraordinárias, cheguei ao ponto de duvidar que as pessoas mudam; ou pior – acreditar que a verdade maior é que as pessoas não mudam mesmo. Precisei percorrer todo o caminho novamente. Revisei o que me ensinaram, e cheguei a conclusões preliminares que, pelo menos a mim, me fizeram mais sentido. Primeiro, considero que as mudanças de que fala o Evangelho não são necessariamente estruturais, na personalidade ou na índole das pessoas, mas em seus valores, seus amores, e portanto, seus objetos de devoção. A grande mudança do Evangelho não é “eu deixar de ser eu”, mas eu me render à vontade do meu novo Senhor, isto é, não mais o meu eu, mas o Cristo, que vive em mim. Muita coisa na vida muda, mas continuamos sendo nós mesmos. A conversão não implica na despersonalização. Ela não apaga tudo o que vivemos e nos fez o que somos. Mas após a rendição a Cristo, toda a vida passa por uma revisão, e, necessariamente, deixa-se de fazer muita coisa. E passa-se a fazer outras. Não por obrigação ou culpa, mas por uma nova orientação da vontade: afinal, mudou o objeto de devoção. As figuras “morte e ressurreição”, ou “novo nascimento”, que simbolizam o antes e o depois da experiência mística-espiritual cristã, significam passar a viver orientado para outra direção. Não é que tenhamos mudado – o que mudou foi a maneira como convivemos com o que sempre fomos, e provavelmente vamos continuar sendo. O extraordinário nisso é que já não somos mais obrigados a ser o que sempre fomos. Não estamos mais escravizados a realizar a sina da nossa personalidade nem a cumprir o vaticínio das marcas que a vida deixa. Somos livres: livres para nos reinventarmos, livres para virmos a ser e, inclusive, livres para continuar sendo o que sempre fomos. O que muda é que nos relacionamos de maneira tão diferente conosco mesmos, que as pessoas ao nosso redor dirão que parecemos outra pessoa. Conhecemos a verdade, e a verdade nos libertou. Na verdade, as pessoas mudam, mas em número, profundidade e velocidade inferiores ao que desejamos: pouca gente, mudanças razoavelmente superficiais e lentas. Portanto, aprenda a conviver com as pessoas do jeito que as pessoas são. Não passe a sua vida tentando mudar os outros: seu cônjuge, seus filhos, seus amigos, seu chefe ou colegas no trabalho. Deixe isso nas mãos de Deus, à mercê da graça. Conviva a partir da gratuidade: paciência nos processos, perdão, mais amor, entrega e serviço do que cobranças, exigências e condições. Aprenda a se relacionar com os outros do jeito que eles são. Não tente fazer novas as pessoas. Faça novos acordos. Você vai ver como sua vida vai mudar. E os outros também.

Ed René Kivitzé escritor conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo

IGREJA

Escrito por Ariovaldo Ramos





Sei que tua ênfase é coletiva:
De tua proposta de comunidade
Que no respeito à alteridade
Cura-se a nossa cerviz altiva

Porém, falo, com muita humildade
Se não estaria esse projeto
De tua cara preferência, objeto
Algo distante da realidade?

Essa gente, até mesmo por zelo
Numa séria distorçäo do desvelo
Desconsidera a fraqueza nossa!

Pois que não o pode, nenhum sujeito
Levar a própria vida de tal jeito
Que nem ao menos pecar ele possa

Comissão e Omissão

Por: Ariovaldo Ramos

Todos reconhecemos o que chamamos de “a grande comissão”: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura.” (Mc 16.15 ) E, de uma maneira concreta, ainda que não excelente, como o desejado, a Igreja tem cumprido a missão de levar, a cada pessoa, o conhecimento da boa notícia de que o Filho de Deus veio à Terra para buscar o que se havia perdido. O que não temos percebido é que essa comissão tem três frentes.

A primeira frente é a que já foi mencionada, o anúncio ao indivíduo, na qual nos temos saído bem, apesar de deixarmos a desejar no quesito excelência.
A segunda frente é a da implicação nacional: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mt28.19,20)

Nessa dimensão o que se considera é a influência a ser exercida sobre as nações, de modo a adequá-las às demandas do Cristo. Alguns grupos intentaram-no na história, porém, foram tentativas que, ainda que, em certa medida, produzissem efeito, tiveram um caráter extemporâneo. Mesmo a tentativa da igreja de roma, principalmente, na idade média.

Entre outros, tivemos os puritanos, na Inglaterra; os presbiterianos, na Escócia; os calvinistas, em Genebra, na Suiça; e, mais recentemente, na Holanda, com Abraham Kuipper. Causaram impacto, porém, foram episódicas, algumas, inclusive, com a intenção de implantar o Reino, ao invés de sinalizá-lo, como está proposto na Escritura, uma vez que a implantação fica por conta do Senhor em sua volta. Resta, entretanto, uma tarefa, a de influenciar as nações, de modo que o máximo possível do Reino nelas apareça, pois, não podemos nos esquecer de que há um juízo para as nações: Mt 25.32-46 – onde Jesus avaliará cada nação pela forma como os vitimados pelo sistema foram tratados. Enfim, se houve ou não justiça social.

A terceira frente é a da provocação de adoração por meio das boas obras: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5.16) Jesus ordena que manifestemos a luminosidade com a qual, ele mesmo, nos dotou. Essa luminosidade aparece na forma de boas obras, que têm a função de provocar nos beneficiados a glorificação do nome do Pai. Essas boas obras têm a ver com as nossas características que, necessariamente, nos levam a fazer o bem: As qualidades expostas nas bem-aventuranças.

Somos humildes de espírito, gente que se sabe dependente da graça, abraçando a todos sem nenhuma discriminação, reconhecendo em todos um valor intrínseco: Deus os ama e os quer salvar, portanto, devem ser amados e ajudados por nós. Somos os que choram, gente de compaixão ativa, que está onde o sofrimento acontece para diminuí-lo como for possível. Somos os mansos, gente que entende a autoridade a partir do serviço, e, então, pelo exemplo, aponta caminho para a sociedade, para a construção de uma comunidade solidária. Somos os que têm fome e sede de justiça, gente que não se esquiva de ser a voz dos que foram emudecidos pela injustiça em suas múltiplas formas. Somos misericordiosos, gente que não confunde o pecado com o pecador, reconhecendo a todo o ser humano o direito à dignidade, independente da gravidade de seu erro, aprimorando as instituições em favor do ser humano.

Somos os de coração puro, gente que sabe das possibilidades que a graça cria, que sabe que vale a pena investir no ser humano e na sociedade, porque a graça divina age eficazmente, fazendo com que o universo conspire a nosso favor; daí, estaríamos por detrás de todo ato de desenvolvimento transformador, de todo o investimento em saúde, educação, de toda a atividade que emancipe o ser humano. Somos os pacificadores, aqueles que resolvem problemas tendo em vista o estabelecimento do direito. Estamos prontos a sofrer por isso, porque foi o que vimos no Cristo, Jesus. Infelizmente, ainda que haja um grande número de cristãos engajados nessa aplicação de nossa luminosidade, essa tem sido uma grande omissão da igreja local, a começar pelo ensino dessa verdade, de modo que os cristãos, em não o sabendo, sequer são desafiados a vivê-lo. Os cristãos não têm sido informados de que são seres luminosos e de como essa luz ilumina. Muita gente está sofrendo por causa desse desconhecimento, entre os seguidores de Jesus, sobre a sua natureza no Cristo e a consequente manifestação da mesma. Essa luz tem de brilhar.